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77 anos do bombardeamento de Hiroshima: por que EUA não aprenderam as lições do passado?

© AP Photo / Stanley TroutmanCorrespondente aliado visita escombros de Hiroshima após ataque nuclear dos EUA, em 8 de setembro de 1945
Correspondente aliado visita escombros de Hiroshima após ataque nuclear dos EUA, em 8 de setembro de 1945 - Sputnik Brasil, 1920, 06.08.2022
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Os Estados Unidos não admitem a culpa do crime de guerra de 6 e 9 de agosto de 1945 - o bombardeio nuclear de civis nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Segundo analistas russos entrevistados pela Sputnik, os EUA podem recorrer de novo às armas nucleares.
Em agosto de 1945, aviões estadunidenses lançaram bombas atômicas sobre as cidades chinesas de Hiroshima e Nagasaki. Como resultado da explosão atômica e das suas consequências, em Hiroshima morreram 140 mil pessoas (de uma população de 350 mil). Outras 74 mil pessoas em Nagasaki também se tornaram vítimas mortais do bombardeio nuclear. Os civis constituíam a maioria esmagadora dos mortos.
Conforme o diretor do Centro de Segurança Internacional da Academia das Ciências russa, o acadêmico Alexei Arbatov, os EUA podem voltar a usar as armas nucleares, já que efetuar o primeiro ataque nuclear faz parte central da doutrina militar norte-americana.
© Foto / Domínio público / Centro de Mídia pela Paz de HiroshimaJaponesa vítima de ataque atômico à cidade japonesa de Hiroshima
Japonesa vítima de ataque atômico à cidade japonesa de Hiroshima - Sputnik Brasil, 1920, 06.08.2022
Japonesa vítima de ataque atômico à cidade japonesa de Hiroshima

"Eles não acreditam que tenha sido um ato de agressão. Segundo eles, a agressão foi cometida pelo Japão em Pearl Harbour [base naval dos EUA, atacada pela Marinha japonesa no início da Segunda Guerra Mundial] e as ações americanas foram atos de retaliação, assim como o bombardeio estratégico de cidades europeias por aviões britânicos e americanos. Eles consideram isso como atos de retaliação contra o agressor. Pode-se discordar, mas é a opinião dominante nos Estados Unidos", afirmou.

De acordo com o especialista, Hiroshima pode acontecer novamente.

"Há mais de cinco meses que estamos à beira de um confronto militar direto entre a Rússia e a OTAN. Caso se dê um confronto direto, caso aconteça uma nova escalada da crise ucraniana, será possível o uso de armas nucleares. Claro que ninguém vai usá-las de ânimo leve. Trata-se do último recurso, mas não está fora de questão", salientou o especialista.

De acordo com Arbatov, a doutrina nuclear norte-americana prevê a possibilidade de efetuar um primeiro ataque com armas nucleares, caso os aliados da OTAN sejam atacados com armas convencionais. Ao mesmo tempo, a doutrina russa prevê a possibilidade do primeiro uso das armas nucleares só em caso de um ataque contra a Rússia que ponha em perigo a própria existência do Estado russo, além da resposta no caso de um ataque nuclear contra a Rússia ou os seus aliados, esclareceu o acadêmico.
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"Neste momento, a doutrina nuclear americana está sendo atualizada, embora sua publicação fosse esperada no início do ano. Ao mesmo tempo, a atual edição de 2018 causou e ainda causa inúmeras dúvidas, inclusive dentro dos EUA", disse por sua vez à Sputnik Dmitry Stefanovich, analista do Centro de Segurança Internacional da Academia das Ciências russa.
De acordo com Stefanovich, "nos documentos de nível mais baixo até aparecem formulações tipo 'uso de armas nucleares para recuperar a contenção', o que soa de forma absurda".
Segundo o analista, "ao mesmo tempo, é especialmente interessante ver que, vezes sem conta, conceitos doutrinários no mínimo estranhos são formulados pelo único país com experiência prática de uso militar de armas nucleares", sublinhou o especialista.
O ex-secretário-geral da Conferência de Desarmamento da ONU, o antigo vice-ministro das Relações Exteriores russo Sergei Ordzhonikidze, afirmou que o bombardeamento nuclear de Hiroshima e Nagasaki foi um crime militar do imperialismo norte-americano e não pode haver justificação para isso, tomando em conta que, até o momento dos ataques, o destino do Japão militarista já estava determinado. Além disso, a razão principal da capitulação do Japão foi a declaração de guerra pela União Soviética, e não as mortes em massa da população civil.
© AFP 2022 / JIM WATSONBarack Obama e Shinzo Abe durante evento solene em Hiroshima em 27 de maio de 2016
Barack Obama e Shinzo Abe durante evento solene em Hiroshima em 27 de maio de 2016 - Sputnik Brasil, 1920, 06.08.2022
Barack Obama e Shinzo Abe durante evento solene em Hiroshima em 27 de maio de 2016

"Isso foi feito para demonstrar à União Soviética quem mandaria em um mundo novo, após a Segunda Guerra Mundial. O destino de milhares de pessoas, falecidas em resultado dos bombardeamentos, não lhes interessava de todo, junto com o destino dos que morreram já depois da Segunda Guerra Mundial ao longo dos conflitos na Coreia, Vietnã, Iraque, Líbia e Síria", disse.

Segundo o analista, "o uso das armas nucleares demonstrou a violência do imperialismo norte-americano".
"O objetivo de qualquer imperialismo é dominar o mundo. Toda a história dos conflitos após a Segunda Guerra Mundial são as tentativas dos EUA de estabelecer a hegemonia mundial por meio de guerras sangrentas, que levaram à morte de milhões de pessoas. A lógica do imperialismo não leva em conta as perdas entre civis de qualquer país", acrescentou.
Ordzhonikidze salientou que o objetivo dos políticos norte-americanos é dominar o mundo a qualquer preço, inclusive através do uso das armas nucleares, quando o acharem necessário. Nos últimos anos, os EUA têm de fato sabotado as negociações sobre o desarmamento nuclear.

"Como secretário-geral da Conferência de Desarmamento da ONU, lembro como os norte-americanos tentaram acabar com esse processo. Quando conduzíamos com eles as negociações sobre o SALT I e SALT II [conversações sobre limites das armas estratégicas], tratava-se de conversações sérias. Hoje em dia, estabelecem condições: cortem isso, aqui têm as nossas propostas, se não gostarem delas não faremos negociações. Quando alguém não quer negociações, apresenta propostas que, à partida, são inaceitáveis", afirma o especialista.

Em 6 e 9 de agosto, o Japão assinala os 77 anos dos bombardeamentos atômicos em Hiroshima e Nagasaki.
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