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Celso Amorim: para resolver crise na Ucrânia, objetivo deve ser chegar à paz, e não debilitar Rússia

© AP Photo / Nelson AlmeidaO diplomata brasileiro Celso Amorim durante coletiva de imprensa no seminário "Ameaças à Democracia e a Ordem Multipolar", em São Paulo, em 13 de setembro de 2018
O diplomata brasileiro Celso Amorim durante coletiva de imprensa no seminário Ameaças à Democracia e a Ordem Multipolar, em São Paulo, em 13 de setembro de 2018 - Sputnik Brasil, 1920, 01.08.2022
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Após o tratado entre Kiev e Moscou envolvendo o transporte de grãos, aumentou a expectativa de que um acordo de paz é possível. Em entrevista à Sputnik Brasil, o ex-chanceler Celso Amorim falou sobre a maior dificuldade para resolver o conflito.
O primeiro carregamento de grãos deixou o porto ucraniano de Odessa nesta segunda-feira (1º), sinal de que é possível, a partir de compromissos globais e pragmatismo geopolítico, alcançar um acordo de paz ante o conflito na Ucrânia. Os desafios, entretanto, persistem, e à medida que os combates se prolongam e armas do Ocidente chegam, o diálogo parece cada vez mais difícil.
Em conversa com a jornalista Marina Lang, da Sputnik Brasil, uma entrevista que será publicada em partes ao longo da semana, o ex-chanceler Celso Amorim apresentou o seu entendimento acerca dos desafios que tangenciam uma possível solução de cessar-fogo na Ucrânia, sobretudo diante de um mundo, como ele mesmo descreveu, cada vez mais polarizado e dividido entre blocos de poder.
Amorim enfatizou que não é momento de encontrar culpados e acrescentou que parte do problema é a "falta de uma grande liderança europeia", capaz de abrir diálogo pragmático e com resultados com os múltiplos atores globais da região da Eurásia.

"Eu acho que é preciso negociar. É preciso negociar a paz. E a única pessoa em posição de poder que fala sobre isso é o papa Francisco. Nem mesmo o secretário-geral das Nações Unidas [António Guterres] fala sobre isso, embora tenha visitado Moscou", comentou.

A fala de Amorim ocorre na esteira de um importante acordo entre Kiev e Moscou, consumado após o navio Razoni, com quase 26 mil toneladas de milho, ter deixado o porto de Odessa nesta segunda-feira (1º) com destino a Trípoli, no Líbano. O anúncio foi comemorado por diversos diplomatas no mundo, pois além de trazer estabilidade à segurança alimentar mundial, o tratado é um fio de esperança para a paz.
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Assinado em 22 de julho entre representantes de Rússia, Ucrânia, Turquia e Nações Unidas, o acordo permite a retomada das exportações ucranianas de grãos. Um compromisso similar com o lado russo foi fechado simultaneamente, garantindo a Moscou a comercialização de seus produtos agrícolas e fertilizantes, apesar das sanções ocidentais.
Os lados russo e ucraniano acordaram em garantir a passagem segura das embarcações que carregam os grãos pelo mar Negro e se abster de ataques contra elas, relatou um alto representante da Organização das Nações Unidas (ONU). Conforme disse o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o documento assinado "se tornará um marco importante, inspirador de esperança para a paz e uma resolução mais rápida do conflito".
Para Celso Amorim, "um grupo de países, sendo europeus, dos BRICS e até mesmo a China, que têm grande influência, poderiam ajudar a encontrar uma paz razoável. Esse acordo pressupõe concessões dos dois lados, e para isso é preciso haver diálogo", comentou. Para o ex-chanceler, não existe uma fórmula ideal, mas é possível "entrar em um acordo de paz. É preciso querer, enquanto houver transferência de culpa. Não há solução", alertou.
Segundo ele, é preciso que seja coordenada uma ampla conferência internacional, com Alemanha e França envolvidos, e também a China. Para ele, é fundamental ter um grupo de países cujo "objetivo seja chegar à paz, e não debilitar a Rússia ou dar um exemplo para a China. Esse objetivo de debilitar a Rússia não será alcançado", disse.
Comentando a participação da Turquia, ele explicou que Ancara revelou ter grande poder de negociação. "Eu acho que Ancara pode desempenhar um papel positivo, pois, embora membro da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], tem boas relações com a Rússia e a Ucrânia". Ele destaca que os turcos têm vivências geográficas e históricas importantes na região, "mas há outros atores que poderiam ajudar, até mesmo o Brasil", avaliou.
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Para Nathana Garcez Portugal, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, o "pacto de grãos é um primeiro ato mais significativo, que pode gerar uma abertura para novas negociações, inclusive um acordo de paz. Isso acontece, segundo ela, "principalmente porque ele [o pacto] tem anuência dos países envolvidos no conflito e é uma abertura econômica para a Ucrânia, que enfrenta um estrangulamento econômico. Esse primeiro passo alivia, ainda que pouco, as tensões locais".
Para ela, há um ponto sensível que precisa ser abordado quando o assunto é a paz para a região: o constante envio de armas por parte dos EUA e de alguns países da União Europeia (UE) para Kiev. Ela apontou que o envio de armas mantém vigente a tensão entre os dois países e explicou que "os EUA e a UE não querem se envolver ativamente no conflito, por isso eles enviam as armas. Existe interesse desses países em não sair como segundos e terceiros perdedores" uma vez que a derrota ucraniana seja confirmada.

"Esse envio de armas é para manter os confrontos por um longo período. Ao passo que esse acordo de grãos vem como uma boa notícia, a gente ainda tem elementos que fortalecem as tensões", disse.

Questionada sobre se é possível interromper esse ciclo, ela entende que sim. Inclusive, em sua opinião, "isso pode acontecer nos próximos meses". A especialista avalia que o inverno no Hemisfério Norte está se aproximando, e, com isso, "teremos uma série de países, especialmente da UE, se preparando para o frio". Essa situação pode fortalecer a posição da Rússia, sobretudo diante da dependência de gás russo da UE, disse.
"Nos próximos meses, os interesses em manter o confronto podem diminuir para que se evite novas tensões com a Rússia. Com isso, pode haver também redução do envio de armas para Kiev", concluiu.
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