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Petróleo sintético: o que impede o Brasil de ter uma indústria desse combustível?

© AFP 2022 / Alice MartinsHomem trabalha em uma refinaria de petróleo improvisada em Raqqa, na Síria
Homem trabalha em uma refinaria de petróleo improvisada em Raqqa, na Síria - Sputnik Brasil, 1920, 27.07.2022
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Com a crise global envolvendo o preço do barril de petróleo, a discussão sobre alternativas para fugir da dependência da commodity ganhou força no mundo. Você já ouviu falar, por exemplo, em petróleo sintético?
A tecnologia que produz o petróleo sintético existe há bastante tempo, sendo bem desenvolvida e dispondo de plantas comerciais pelo mundo, como nos EUA, Alemanha e Espanha. Não há, no entanto, nenhuma no Brasil. Em função de seu processo ser demasiado caro, envolvendo catalisadores de alto custo, o valor acaba sendo incompatível com o do petróleo fóssil e distante da realidade econômica brasileira.
De acordo com Amanda Duarte Gondim, professora de química da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenadora da Rede Brasileira de Bioquerosene e Hidrocarbonetos Sustentáveis para Aviação (Rbqav), o petróleo sintético "é, sim, uma alternativa" inteligente, principalmente diante dos aumentos no valor do barril e por "contemplar também as questões ambientais".
A tecnologia do petróleo sintético data do início do século passado, a partir do conhecido processo de Fischer–Tropsch, empregado inclusive durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um processo químico para produção de hidrocarbonetos líquidos (como gasolina e querosene) a partir de gás de síntese (CO e H2). A produção se tornou popular na Alemanha de 1936: por ser um país pobre em petróleo mas rico em reservas de carvão, o governo alemão usou o processo de Fischer–Tropsch para produzir combustíveis sintéticos alternativos.
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Para produzir a commodity de forma sintética, é preciso extrair e processar hidrogênio e carbono. O hidrogênio é obtido separando-se os componentes da molécula de água — hidrogênio e oxigênio — em um processo que usa eletricidade, chamado eletrólise. Já o carbono necessário pode ser obtido de diversas fontes, podendo ser recolhido até mesmo de uma fábrica que está descartando CO2.
Posteriormente, em outro processo industrial, é necessário unir o hidrogênio e o carbono, sintetizando uma cadeia de hidrocarboneto. Dessa forma, é gerada artificialmente uma molécula que é exatamente igual à do diesel, à da gasolina ou à do querosene tradicional.
A princípio, a receita parece simples. Mas existem dificuldades que impedem que a indústria se desenvolva no Brasil, como a necessidade de se usar eletricidade renovável. Para Amanda Duarte Gondim, o petróleo sintético não constitui uma ameaça à indústria do petróleo tradicional.
"Não vamos deixar de usar petróleo por falta dele, mas sim porque encontramos alternativas — tal como deixamos de usar a pedra para fazer fogo por termos outras formas de obtê-lo. Não há ameaça ao petróleo, não é essa a questão", explicou. A especialista defende o uso do "petróleo sintético para produtos mais nobres", como solventes, e para o desenvolvimento de materiais.
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Questionada sobre as razões pelas quais o Brasil demora em adotar o petróleo sintético, ela aponta que esse ainda é um processo caro.

"Todas essas tecnologias começam a ter uma alta porque é uma alternativa para se obter os mesmos produtos, com as mesmas características, de uma fonte renovável, a um custo semelhante ao do petróleo", comentou, acrescentando que, sob algumas formas e dependendo do país, "essa sustentabilidade é remunerada com políticas públicas".

Ela relatou, entretanto, que "a indústria do petróleo está correndo atrás da melhoria dos seus produtos há muitos anos, reduzindo o enxofre, reduzindo as pegadas de CO2". Segundo a pesquisadora, "a indústria de petróleo vem trabalhando nesse aprimoramento. Inclusive, se você observar toda essa tecnologia [do petróleo sintético], as patentes são da indústria de petróleo".
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Entretanto, apesar das iniciativas do setor para promover um "combustível mais verde", há alguns pontos importantes a se considerar: o primeiro, aponta ela, é que "vai demorar muito para se chegar a uma escassez de petróleo". Outro entrave levantado pela especialista é que a tecnologia "vai valer a pena à medida que esse petróleo sintético tenha um custo mais acessível".

"A tendência é a gente adotar menos tecnologias de combustão utilizando o petróleo e mais utilização de petróleo por outras vias", sobretudo para o "desenvolvimento de outros materiais", explicou.

Para que os combustíveis sintéticos sejam sustentáveis, é fundamental que todo o processo seja feito com eletricidade renovável. Afinal, assim como no caso dos combustíveis tradicionais, quando os combustíveis sintéticos são queimados, eles liberam CO2 na atmosfera (um dos principais gases do efeito estufa, que acelera as mudanças climáticas).
A principal dificuldade nesse sentido é que o aumento dessa produção exigiria grandes quantidades de eletricidade de origens renováveis, sendo imprescindível promover uma indústria de painéis solares e turbinas eólicas. Embora atualmente o custo do combustível sintético seja mais alto do que o dos combustíveis fósseis, especialistas entendem que ele será reduzido com o tempo, sobretudo à medida que pesquisas avançarem.
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