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Inflação de 60% e dívida 'impagável': como escalada da crise na Argentina pode prejudicar o Brasil?

© AFP 2022 / Assessoria de Imprensa da Presidência da Argentina/ Evaristo SáPresidente argentino, Alberto Fernández (à esquerda), em Buenos Aires, e presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em Brasília
Presidente argentino, Alberto Fernández (à esquerda), em Buenos Aires, e presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em Brasília - Sputnik Brasil, 1920, 12.07.2022
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A Sputnik Brasil conversou com analistas para entender o real potencial da crise econômica argentina, com a queda de ministro da Economia e a disparada da inflação, e de que forma o racha no governo de Alberto Fernández pode repercutir no Brasil.
Não seria novidade se um jornal argentino estampasse em sua manchete amanhã que o país vive uma crise sem precedentes. A nação vizinha ao Brasil sofre com picos constantes de ebulição política e econômica e já passa por um novo momento de forte instabilidade.
Seja a pandemia, o conflito na Ucrânia ou as eleições nos Estados Unidos, os impactos de crises e eventos mundiais sempre são mais profundos na Argentina devido à grande sensibilidade ao dólar.
No último dia 2, o então ministro da Economia argentino, Martín Guzmán, renunciou ao cargo e deu novos contornos à crise do atual governo de Alberto Fernández. De correntes políticas diferentes, o presidente e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, se veem em lados opostos do debate sobre como enfrentar a atual situação econômica do país.
Enquanto Fernández apostava em Guzmán para tratar da dívida externa do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o grupo de Kirchner defende nova orientação política quanto ao acordo estabelecido pelo ex-presidente Mauricio Macri.
Além da dívida externa, a Argentina convive há alguns anos com outro grave problema econômico. Com taxas galopantes, a inflação chegou a 60,7% em maio no acumulado em um ano, a maior em três décadas, conforme noticiou o site AméricaEconomía, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).
© Sergei KarpukhinO presidente argentino, Alberto Fernández, escuta uma questão durante coletiva de imprensa ao lado do presidente russo, Vladimir Putin, após encontro bilateral no Kremlin, em Moscou, em 3 de fevereiro de 2022
O presidente argentino, Alberto Fernández, escuta uma questão durante coletiva de imprensa ao lado do presidente russo, Vladimir Putin, após encontro bilateral no Kremlin, em Moscou, 3 de fevereiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 12.07.2022
O presidente argentino, Alberto Fernández, escuta uma questão durante coletiva de imprensa ao lado do presidente russo, Vladimir Putin, após encontro bilateral no Kremlin, em Moscou, em 3 de fevereiro de 2022. Foto de arquivo
Para piorar a situação de Fernández, o governo perdeu a maioria no Senado para a centro-direita na eleição legislativa de 2021. Em 2023, o país terá novas eleições presidenciais, e há jornais locais, como o Página/12, que já apontam a possibilidade de Kirchner concorrer às prévias contra Fernández, no que seria a cristalização do racha do atual governo formado para derrotar a direita de Macri no pleito passado, em 2019.
Mas qual é de fato o potencial dessa nova crise argentina? A situação econômica é pior ou mais contornável que as demais vividas pelo país neste século? E de que forma a escalada da crise política pode impactar o Brasil?
Para Fábio Pereira de Andrade, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e especialista em economia e administração pública, a crise atual é "muito séria". Segundo ele, a situação é uma continuidade de problemas anteriores, que agora deverão ter efeitos mais amplos sobre a inflação e o desemprego.

"O desempenho econômico da Argentina é muito sensível à balança de pagamentos, sobretudo com relação à conta de capitais. Ou seja, a Argentina depende sensivelmente de dólares. Essa crise atual é mais um capítulo que cria dificuldades para o país captar dólar", apontou Andrade.

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Segundo o especialista, a Argentina não conseguiu, ao longo dos anos, se desvincular de sua dependência da moeda americana. Além de boa parte da população preferir manter suas reservas em dólares, para não perder dinheiro de compra com a desvalorização do peso argentino, o país é exportador de commodities, principalmente de trigo, deixando o mercado interno ainda mais dependente do exterior.

"Os termos de intercâmbio para a Argentina são muito desfavoráveis, de tal forma que uma crise de confiança faz o mercado de capitais deixar de aportar recursos e investimentos de longo prazo", avaliou o professor da ESPM.

O cientista político e professor de relações internacionais Bruno Lima Rocha aponta que o acordo sobre a dívida externa firmado por Macri com o FMI é "simplesmente impagável". Segundo ele, Guzmán renunciou após perceber que as condições políticas que o levaram à possibilidade de negociar a dívida atual não têm mais base de sustentação.

"Metade do governo é contra, da base do governo de Kirchner, e a situação social está muito agravada. Não deu para reverter os danos dos quatro anos neoliberais de Macri como o período Kirchner [2003 a 2015], com Néstor e Cristina, conseguiu após os mandatos de Carlos Menem e o desastre que foi [Fernando] de la Rúa e o governo-tampão de [Eduardo] Duhalde. Estamos diante de uma crise política que vem desde o governo Menem, quando este abriu mão da soberania do país", disse Rocha.

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Impactos no Brasil

Segundo Fábio de Andrade, da ESPM, apesar de haver um forte relacionamento comercial entre Brasil e Argentina, a dependência econômica de Buenos Aires para com Brasília é muito maior do que o contrário. Ele afirma que, para a Argentina, o fato de o Brasil vir patinando economicamente nos últimos anos, com momentos de recessão, "é mais uma pedra" no sapato argentino.
O especialista lembra que uma parte do segmento de autopeças da indústria automobilística brasileira está vinculada à Argentina, o que poderia gerar aumento de preços no país. Porém ele aponta que a desvalorização do peso promove um balanceamento, já que o real fica cada vez mais forte frente à moeda argentina.

"O Brasil é grande consumidor de trigo da Argentina, e essa é uma commodity que segue os preços internacionais, que já estão elevados desde o conflito na Ucrânia. Diria que o Brasil não deve se preocupar tanto, a não ser alguns exportadores que desaguam produtos na Argentina", explicou.

O cientista político Bruno Lima Rocha aponta que Argentina e Brasil já foram mais complementares, mas nenhuma chancelaria brasileira "pode se dar ao luxo de desconhecer a crise argentina e deve pensar saídas em conjunto".
Ele diz que "o Brasil, como importante membro do FMI, poderia intervir nessa renegociação [da Argentina com o FMI] de uma maneira mais pesada". O Brasil quitou suas dívidas com o fundo monetário durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005. Em 2009, o país chegou até a emprestar dinheiro à organização pela primeira vez na história.

"Tanto o governo de Jair Bolsonaro como o do ex-presidente Michel Temer abandonaram as relações Sul–Sul como prioridade e voltaram à situação de vassalagem para com os Estados Unidos e o mundo europeu. Mas é muito complicada uma crise argentina diante de uma crise econômica brasileira. É como se o que resta de motor industrial na América do Sul estivesse indo a pique. Isso é preocupante para todos. E pode prejudicar, sim, as cadeias integradas. A desindustrialização nos afeta, no Brasil, e a Argentina também", disse Rocha.

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