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Conflito na Ucrânia não será o foco do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, diz especialista

© AP Photo / John MinchilloReunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), 28 de fevereiro de 2022
Reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), 28 de fevereiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 01.07.2022
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Brasil assumiu a presidência rotativa do órgão neste mês. Especialista ouvida pela Sputnik Brasil oferece um vislumbre dos temas que nortearão a atuação do país.
O Brasil assumiu hoje (1º) a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), para um mandato neste mês. Será a 11ª vez que o país ocupa a presidência rotativa do órgão.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Ariane Roder, professora do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead UFRJ) e especialista em relações internacionais, ofereceu um vislumbre dos temas que nortearão o Brasil como presidente do órgão.
Segundo Roder, a questão da Ucrânia será inevitável, embora seja um tema espinhoso para o Brasil e outros países que compõem o BRICS. Ela afirma que embora não tenha se posicionado em formato de neutralidade sobre o assunto, o Brasil também não adotou uma postura mais incisiva.
Por ter uma tradição diplomática que repudia conflitos e ações que, de alguma forma, ferem a autodeterminação dos povos, o Brasil votou a favor do repúdio à operação militar especial na Ucrânia durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em março. O país, no entanto, não foi além desse posicionamento. Se absteve, por exemplo, da votação que, em abril, suspendeu a Rússia do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU).
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Segundo Roder, isso ocorre porque a relação que o Brasil tem com a Rússia, um parceiro estratégico no âmbito do BRICS, coloca o país em uma situação delicada. "A própria China e a Índia se posicionaram de forma neutra, se abstiveram dessa nota de repúdio [da Assembleia Geral das Nações Unidas] exatamente em função dessas conexões no âmbito do BRICS", explica.
Porém ela destaca que a questão da Ucrânia não será o foco da presidência brasileira no CSNU. Isso porque o órgão atualmente "vive uma situação de inoperabilidade em relação ao conflito". O motivo disso é que a Rússia é um de seus membros permanentes, com direito a veto, e conta com o apoio da China, que está na mesma posição.

"O Conselho de Segurança está muito travado em tomar decisões mais assertivas nesse sentido. O que a gente tem visto ali é as negociações irem para o âmbito da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], para os países que estão fazendo frente à Rússia no âmbito da aliança da OTAN."

Por conta disso, o mais provável é que outras pautas sejam o foco da gestão brasileira. "O que a gente tem observado do próprio embaixador brasileiro na ONU é que o Brasil vai ter uma missão mais vinculada aos direitos humanos, para tirar as crianças dos conflitos armados, principalmente no âmbito das operações de paz. Então o que está sendo dito é que o Brasil vai atuar mais nessa frente e também buscando uma ação mais efetiva das comunidades locais para que haja efetividade nas operações de paz em curso no âmbito do Conselho de Segurança", diz Roder.
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Questionada sobre a possibilidade de essa ser uma boa oportunidade para o Brasil colocar em pauta no CSNU a busca por uma maior representatividade de países em desenvolvimento e menos desenvolvidos nas organizações internacionais, Roder diz que o país não é mais tão ativo nessa questão, como era em governos passados. O motivo é a rejeição do presidente Jair Bolsonaro a organizações multilaterais.

"No passado, o Brasil estava mais ativo nessa reivindicação de mudar a estrutura das organizações internacionais, tornando-a mais contemporânea e mais reflexo das relações de poder atuais. Porque hoje o que temos no âmbito das organizações internacionais, principalmente no Conselho de Segurança, é uma configuração de poder que reflete o pós-Segunda Guerra Mundial. Não acredito que o Brasil vá abandonar essa pauta, no entanto ela perdeu força durante o governo Bolsonaro, por vários motivos. Primeiro porque o governo Bolsonaro não é adepto, não defende as organizações multilaterais. Ele tem um discurso bastante crítico em relação à própria ONU, tem preferido relações bilaterais a relações multilaterais. Tem um discurso bastante crítico, também, em relação à questão da governança global, que é denominada de 'globalismo'. Por isso, essa pauta nunca foi muito à frente no seu governo", explica Roder.

O mesmo ocorre com a defesa de uma vaga permanente para o Brasil no Conselho de Segurança. Questionada sobre a possibilidade de essa ser uma boa oportunidade para o Brasil mostrar suas credenciais como um país apto a ocupar uma vaga permanente no órgão — um pleito antigo do Brasil —, Roder diz achar essa uma pauta adormecida.
"Em governos passados, houve uma articulação no âmbito do G4, com Alemanha, Japão, Brasil e a própria Índia tentando uma vaga como membro permanente. Essa coalizão perdeu força, muito porque as relações entre os países ficaram estremecidas. A própria relação do Brasil com os EUA e com a França atualmente também não é muito harmoniosa. Então parece que não tem um ambiente muito propício para avançar nessa pauta. Não acredito que o Brasil vá apostar nesse argumento neste momento. Embora a diplomacia brasileira nunca abandone essa pauta, ela está adormecida. Pelo menos durante o governo Bolsonaro", finaliza Roder.
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