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Advogado sobre crise migratória: brasileiros têm cultura de acreditar que terão vida melhor nos EUA

© AP Photo / Eugene GarciaFamílias migrantes do Brasil atravessam buraco no muro na fronteira dos Estados Unidos, 10 de junho de 2021
Famílias migrantes do Brasil atravessam buraco no muro na fronteira dos Estados Unidos, 10 de junho de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 08.11.2021
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Em vista do número recorde de famílias brasileiras que tentam entrar nos EUA, a Sputnik Brasil falou com um advogado sobre as "armadilhas" potenciais da migração ilegal.
Segundo dados citados pelo portal UOL, entre outubro de 2020 e setembro de 2021 483.846 famílias foram detidas tentando acesso aos EUA pela fronteira mexicana. Entre essas estão 43.867 famílias brasileiras, uma quantidade que chama a atenção, visto que antes, no ano fiscal de 2020, o número de famílias brasileiras foi de 6.414, segundo autoridades norte-americanas.
Além do mais, de acordo com a BBC, 150 brasileiros têm sido detidos por dia ao cruzar a fronteira do México com os EUA em 2021. Assim, o Brasil é a 8ª nação que mais envia emigrantes de forma irregular aos EUA. A subida é impressionante e a quantidade de nacionalidades tentando atravessar a fronteira México–EUA também aumentou: cada vez mais pessoas oriundas de Honduras, El Salvador e Guatemala são detidas na tentativa de acesso ilegal aos EUA.
A situação é preocupante e sinaliza problemas estruturais e sociais bastante profundos nas Américas. Tendo em conta este cenário, a Sputnik Brasil teve uma conversa com Bruno Corim de Oliveira Castro, advogado e especialista em Mobilidade Global na empresa de consultoria Global Mobility, sobre o problema da migração brasileira e sobre sua opinião a respeito da política migratória dos EUA.

Em busca de uma vida melhor

Tendo em conta esses dados recentes, podemos constatar que a crise migratória norte-americana está em ascensão. Bruno Corim de Oliveira Castro concorda que um dos fatores que intensificou esse problema é a pandemia da COVID-19, mas, sem dúvida, ela não pode ser analisada de forma isolada.
© AP Photo / Eugene GarciaFamília de migrantes do Brasil tenta atingir os EUA atravessando o rio Colorado desde o México, 10 de junho de 2021
Família de migrantes do Brasil tenta atingir os EUA atravessando o rio Colorado desde o México, 10 de junho de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Família de migrantes do Brasil tenta atingir os EUA atravessando o rio Colorado desde o México, 10 de junho de 2021
Um ponto bem crucial, na opinião do advogado, que empurra muitas pessoas para os EUA para buscarem uma vida melhor é a falta de "esperança na retomada econômica dos países", principalmente no Brasil e na América do Sul, e na América Central também. Muitos acreditam que, infelizmente por alguns erros de planejamento durante a pandemia, a economia desses países vai demorar a se recuperar.
Crises políticas existentes nos países das Américas Central e do Sul, a violência, a falta de educação e também uma expectativa de ter uma vida melhor nos Estados Unidos são outros elementos que contribuem ao assunto.

Política migratória dos EUA: fator agravante?

O aumento dos migrantes também reflete um período semelhante ao que se seguiu à posse do presidente Joe Biden, que prometeu uma postura diferente de seu antecessor Donald Trump nas questões migratórias.
O especialista relembra que o cenário da crise migratória é um pouco mais antigo e já existia na presidência de Donald Trump. Muitos procedimentos que foram adotados em relação aos imigrantes pelo ex-presidente Donald Trump foram "medidas reprováveis, que são realmente muito controversas, desrespeitando totalmente os direitos humanos", opinou.
Ao contrário, o governo Biden está adotando algumas medidas para tentar uma abordagem mais humana referente à migração. Era um dos pontos de sua campanha eleitoral, juntamente com a sua vice-presidente Kamala Harris.
© AP Photo / Eugene GarciaGrupo de migrantes brasileiros passam ao longo do muro na fronteira México-EUA em Yuma, 8 de junho de 2021
Grupo de migrantes brasileiros passam ao longo do muro na fronteira México-EUA em Yuma, 8 de junho de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Grupo de migrantes brasileiros passam ao longo do muro na fronteira México-EUA em Yuma, 8 de junho de 2021
"Esse discurso, que seria mais benéfico aos migrantes, acabou chegando em diversos países, e até de forma distorcida, que os Estados Unidos estariam de portas abertas para imigrantes, inclusive ilegais", nota o advogado, acrescentando que nós ainda não vimos medidas efetivas, principalmente para os migrantes ilegais.
Entretanto, Joe Biden melhorou em algumas questões as políticas migratórias, segundo ele. Em particular, o presidente colocou algumas pessoas no comando das operações, das agências e dos departamentos migratórios que são imigrantes ou que têm origem em familiares que são imigrantes. A própria Kamala Harris tem histórico de sua família de imigração para os Estados Unidos, aponta o especialista. A mudança da mentalidade já é um grande passo, acredita o advogado.
"Apesar de todas as informações que às vezes chegam no Brasil ou nos outros países que os EUA não é um país que é favorável aos imigrantes, mas os EUA é um país de imigrantes, precisa de imigrantes, mas [...] legais, que entrem na forma correta."
No entanto, a adoção de uma política migratória mais humana vai demandar tempo, precisa até de uma união entre o Executivo e o Legislativo, considera ele.

Por que famílias brasileiras tentam sua sorte na travessia?

Conforme o advogado, no cenário brasileiro não existe um único fator para explicar o aumento da imigração do Brasil para os EUA e é preciso analisar o histórico como um todo.
O primeiro motivo é mais abstrato: "Nós, os brasileiros, já temos a cultura de acreditar que nos Estados Unidos você vai ter uma melhor segurança, uma melhor qualidade de vida, você vai receber uma moeda mais forte, que o seu poder de compra nos EUA é melhor", elenca ele os pensamentos gerais que levam muitas pessoas a terem esse objetivo de morar nos EUA.
O segundo elemento são as consequências da pandemia, que acabou trazendo uma grave crise, tanto política quanto econômica. Muitos perderam seu emprego e acabam migrando para o exterior, algumas empresas saíram do país nesse período, principalmente do setor automotivo, como a Ford, por exemplo.
Além disso, observamos no Brasil uma diminuição no incentivo à pesquisa e à tecnologia que em outros países existe. "Se a gente for analisar esse período pós-pandêmico, profissionais principalmente ligados à saúde, ligados à engenharia, ligados à tecnologia de informação, vão ser muito requisitados. E países, assim como os Estados Unidos, que dão incentivo para essas áreas, eles vão precisar de mais trabalhadores", prevê o especialista.

Migração ilegal: vale a pena?

Para o especialista, a migração ilegal sempre tem mais riscos do que benefícios. Acreditar que viajar em família ou com crianças pode facilitar o processo de migração é algo ilusório, avisa ele.
"O risco da emigração é muito alto. Você acaba entrando aí num jogo que você pode perder ou ganhar."
Teve um caso recente de uma brasileira que estava tentando atravessar para os EUA pelo México e acabou falecendo. Há casos de pessoas que pagam até 100.000 reais, ou até mais, para atravessar ilegalmente e não conseguem. "Você tem que colocar isso na balança", diz.
© AP Photo / Fernando VergaraMigrantes haitianos com crianças partem da Colômbia, 19 de outubro de 2021
Migrantes haitianos com crianças partem da Colômbia, 19 de outubro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Migrantes haitianos com crianças partem da Colômbia, 19 de outubro de 2021
O especialista considera que no Brasil existe uma falta de informação para as questões migratórias, então disseminar as informações oficiais é um ponto crucial para que isso melhore. Quanto aos EUA, a primeira medida que o governo pode fazer, do ponto de vista do advogado, é uma melhor divulgação de informações migratórias corretas e oficiais, sobre os vistos que existem e sobre as possibilidades no processo.
Além disso, eles podem estudar também quais profissionais os EUA precisam e que mão de obra está faltando, trabalhar em cooperação com empresas, como a McDonald's, e trazer imigrantes para trabalhar nessas áreas.

Quais medidas uma família deve tomar antes de decidir emigrar?

"Migrar para qualquer país do mundo não é fácil, mas é possível", acalma o advogado. Se vocês decidirem mudar de país, o essencial é fazer um planejamento pessoal e financeiro, conversar com sua família e planejar as finanças.
Ele insiste no fato que é necessário procurar as possibilidades de migrar legalmente, buscando toda a informação disponível.
"Antes de você decidir fazer essa grande mudança na sua vida, faça o planejamento, busque informações, e talvez você consiga um visto para morar legalmente nos Estados Unidos."
Em uma recente pesquisa, foi constatado que nos últimos dez anos os EUA aumentaram mais de 400% a emissão de vistos a profissionais e pesquisadores brasileiros com conhecimentos excepcionais em suas áreas. Se a gente for analisar hoje, os EUA abrigam a maior comunidade brasileira no exterior. São em torno de 1,7 milhão de pessoas que querem mais segurança, educação e salários mais competitivos.
© AP Photo / Marco UgarteMigrantes com bandeira americana no México, 25 de outubro de 2021
Migrantes com bandeira americana no México, 25 de outubro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Migrantes com bandeira americana no México, 25 de outubro de 2021
Por sua parte, o especialista contou que sua qualificação acadêmica pode ajudar a emigrar para os EUA. Uma categoria de vistos que hoje mais cresceu, principalmente dentro da comunidade brasileira, é o visto dos EBs (employment-based), ou seja, dos baseados em emprego. O que é importante saber é que muitas vezes esse profissional que quer ir para os EUA pode conseguir aí um visto que seja baseado nessa sua qualificação profissional.
Em regra, um profissional que seja graduado e que tenha pelo menos cinco anos de graduação, ou um profissional com ensino técnico ou tecnólogo que tenha pelo menos dez anos de experiência, pode aplicar a um dos vistos mais solicitados, ao visto EB-2 NIW.
Enfim, concluiu o advogado, "uma das maiores virtudes do imigrante é ter paciência, porque não é possível mudar a vida de uma hora para outra, isso demanda tempo".
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