COVID-19: após 18 meses, Portugal reabre boates no 'dia da libertação'; médicos aprovam o timing

© AFP 2022 / PATRICIA DE MELO MOREIRATasca do Chico, no Bairro Alto de Lisboa, um dos redutos mais tradicionais do fado em Portugal
Tasca do Chico, no Bairro Alto de Lisboa, um dos redutos mais tradicionais do fado em Portugal - Sputnik Brasil, 1920, 01.10.2021
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Portugal entra na terceira e última fase de desconfinamento nesta sexta-feira (1º), data que vem sendo chamada de "dia da libertação". Após mais de 1 ano e meio, as discotecas serão reabertas, uma das principais medidas desta etapa final. Médicos ouvidos pela Sputnik Brasil estão de acordo com o momento.
Com quase 85% da população com vacinação completa, o governo português autorizou novas medidas que permitem que a vida volte ao velho normal. Além da reabertura de boates e bares (na prática, estabelecimentos que vendem apenas bebidas), restaurantes, lojas, eventos esportivos e culturais deixam de ter limitação de número de pessoas, podendo voltar à capacidade máxima.
Também volta a ser liberada a venda e o consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas sem restrição de horários. Para entrar em restaurantes e hotéis não será mais necessário apresentar o Certificado Digital COVID-19 da União Europeia. Mas a apresentação do documento será obrigatória em casas noturnas.
A médica gaúcha Nair Amaral, que trabalha na linha de frente de combate à COVID-19 em dois hospitais da Área Metropolitana de Lisboa (AML), aprova o timing das medidas. Segundo ela, após a população se sacrificar com lockdown, distanciamento social, testes invasivos, vacinação e certificados, este é o momento de colher os frutos do sacrifício.
"Já é chegada a hora de realmente testarmos todas as medidas. Primeiro foi o sacrifício, a gente plantou, agora vamos colher. Não dá mais. Precisamos fazer essa experiência social, testar a vida como ela é de novo. A população, até agora, cumpriu tudo o que foi dito, depois que foi voltado atrás e novamente dito, na maior parte dos lugares do mundo", avalia Nair Amaral.
Uma das principais consultoras da Sputnik Brasil durante a pandemia, a médica brasileira sempre atendeu este correspondente em Lisboa, mesmo nos momentos mais difíceis de crise, nas horas mais improváveis, ainda que de madrugada, após a saída de plantões exaustivos. 
Ela conta que esteve nas regiões Sul e Nordeste do Brasil, em setembro, e que a maioria das pessoas tem respeitado as medidas preventivas, como o uso de máscaras e álcool em gel, bem como o distanciamento social. Segundo ela, em geral, o paciente brasileiro tem medo de doença, pois sabe o que é viver em um país muito grande com problemas crônicos de saúde.
De volta a Portugal, ela analisa que a maior parte da população também foi cumpridora das medidas, assim como em outros países. Por isso, ela acredita que as pessoas merecem essa recompensa da libertação e da reabertura, até para testar se serão necessários alguns ajustes, mas não recuos. 
"Acho que o fato de estarmos conseguindo agora voltar é mérito da população que fez aquilo que foi pedido e não é mérito de nenhum governante. Quem fez sacrifício foi o povo. Acredito que esse é um caminho sem volta, com, talvez, alguns pequenos passos atrás em alguns lugares. Vai haver excessos, mas, daqui para frente, o caminho é esse. Temos que lutar contra recuos, exceto se acontecer alguma coisa totalmente nova e diferente da prevista", defende.
© Foto / DivulgaçãoA médica gaúcha Nair Amaral em ação na linha de frente de combate à COVID-19 em Portugal
A médica gaúcha Nair Amaral em ação na linha de frente de combate à COVID-19 em Portugal - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
A médica gaúcha Nair Amaral em ação na linha de frente de combate à COVID-19 em Portugal

'Precisamos de discotecas, música, arte e dança', diz médica

Nair ressalta o alto custo psíquico que a pandemia provocou em grande parte das pessoas devido ao isolamento social. Passado o pior momento da COVID-19, é hora de cuidar da saúde mental, acredita ela, reconstruir pontes e laços afetivos que foram desatados devido à necessidade de distanciamento físico. 
Nesse sentido, ela aponta que a arte é uma resposta aos distúrbios provocados na saúde mental durante o confinamento. Como o poeta e diplomata Vinicius de Moraes declamou em seu "Samba da Bênção", Nair também acredita que "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". E mostra que, por trás do jaleco de médica e de EPIs, também bate um coração.
"As pessoas estão social e mentalmente doentes, inseguras, com medos. Foi um dos maiores testes recentes de sofrimento coletivo. Como se sai disso? Precisamos de discotecas, espetáculos, música, arte e dança, confraternização. O ser humano precisa de afeto, de congregação. Precisamos uns dos outros, ver as nossas faces", poetiza. 
Para ela, é preciso mais do que olhar nos olhos por debaixo de máscaras. A especialista concorda que as máscaras protegem e que é melhor com elas do que sem, mas faz a ressalva de que a respiração humana, com seus pulmões e vias aéreas, não é apropriada para o uso eterno desse equipamento de proteção individual.
Por isso, argumenta que é necessário usá-lo por um período determinado, à exceção dos profissionais de saúde.
"Tem pessoas que se falam há quase dois anos e não sabem quem são, porque só viram os olhos. A face e o rosto são a nossa identidade social. Isso tudo não é certo, não é fisiológico, não é natural, não é saudável nem física nem mentalmente e não deve ser perpetuado", justifica.
© AP Photo / Armando FrancaEnfermeiras portuguesas segurando caixas de Styrofoam para recolher doses da vacina da Pfizer/BioNTech contra COVID-19 para serem distribuídas nos hospitais de Lisboa
Enfermeiras portuguesas segurando caixas de Styrofoam para recolher doses da vacina da Pfizer/BioNTech contra COVID-19 para serem distribuídas nos hospitais de Lisboa - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Enfermeiras portuguesas segurando caixas de Styrofoam para recolher doses da vacina da Pfizer/BioNTech contra COVID-19 para serem distribuídas nos hospitais de Lisboa
Feliz, contente, otimista e favorável à reabertura. Essas são algumas das palavras que descrevem o estado de espírito atual de Doutora Nair. Apesar da perda de milhões de vidas em decorrência da pandemia, ela faz um balanço com saldo positivo para a humanidade. 
A médica acredita que as sociedades saem vencedoras, mas alerta para que o aprendizado seja mantido como memória para futuras pandemias, que hão de vir.
"Só chegamos a essa parte de poder voltar porque as pessoas não só fizeram o certo, mas se sacrificaram. Deram suas vidas, os seus anos de vidas, sacrificaram seus afetos, amores, não viram seus pais e amigos. Entraram em depressão, perderam empregos. As pessoas fizeram sacrifícios profundos, nunca mais recuperáveis, e ainda estão fazendo. Pais que morreram sem ver os filhos, sofrimentos psíquicos de todos os tipos. As pessoas se submeteram a isso. E elas merecem uma chance e credibilidade, depois da doação e resiliência", ensina. 

Médico carioca vê risco em suspensão de exigência de certificados 

Já o médico carioca Marcio Sister, que mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal, é mais pragmático. Apesar de ser favorável à maioria das novas e finais medidas de desconfinamento do governo, inclusive a reabertura de discotecas, ele está preocupado com a suspensão da obrigatoriedade de apresentação de certificados de COVID-19 para entrar em restaurantes e hotéis.
Mesmo avaliando que será um alento para os empresários, porque diminuirá os custos e o tempo de atendimento, e para os próprios clientes, pois não vão precisar se preocupar com isso, o especialista faz a ressalva de que a medida virá acompanhada de incerteza e insegurança.
"Nós, que tínhamos uma segurança de entrar num restaurante, sentar à mesa e saber que, na mesa ao lado, as pessoas tinham o certificado e estavam vacinadas, agora não vamos mais saber. Vai ser um risco. Vamos torcer para que isso funcione. O tempo vai dizer. Se não fizerem isso, nunca vai se saber", pondera Sister.
© Foto / DivulgaçãoO médico carioca Marcio Sister mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal
O médico carioca Marcio Sister mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
O médico carioca Marcio Sister mora e trabalha em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal
Ainda assim, ele concorda que o momento é o mais adequado ao teste final do desconfinamento. O médico ressalta que não é preciso esperar 100% da população ser vacinada, uma vez que, mesmo assim, as pessoas continuam a transmitir o novo coronavírus. 
"O 'dia da libertação' é uma situação inevitável do momento da pandemia. Em algum momento, isso aconteceria. Portugal, a meu ver, está num momento muito favorável. Os índices todos estão se mostrando favoráveis, índices de vacinação maiores do mundo", diz à Sputnik Brasil.
A imunização completa já atingiu 84,5% da população portuguesa. Dados do último relatório da Direção-Geral de Saúde (DGS), divulgados nesta sexta-feira (1º), mostram que, nas últimas 24 horas, houve quatro óbitos e 696 novas infecções. O sucesso da inoculação fez com que a força-tarefa pela vacinação fosse desmobilizada nesta semana.
Com isso, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que era o coordenador do plano de vacinação, vai voltar à sua carreira militar e é cotado para assumir o cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada, de acordo com especulações da imprensa portuguesa. No entanto, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que cabe ao presidente da República a palavra final sobre essa decisão.
"Com muita pena e tristeza, o vice-almirante Gouveia e Melo foi embora, a equipe dele assumiu para continuar o esquema da vacinação, e vamos torcer para que isso vá adiante", torce Sister. 
Questionado pela Sputnik Brasil se acha mais complicada a não obrigatoriedade de certificados para entrar em restaurantes do que a reabertura das discotecas sem o uso obrigatório de máscaras, o médico diz que sim, desde que a exigência de apresentar os certificados à entrada das boates seja cumprida. 
"Estou na rua e vejo muita gente ainda de máscara. Várias pessoas com as quais falei dizem que vão continuar usando máscara, mesmo em locais em que a máscara poderia ser evitada", relata.
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