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Geração COVID-19: alta no número de jovens 'nem-nens' deve deixar cicatriz para além da pandemia

© AP Photo / Andre PennerBrinquedos são deixados ao Sol durante quarentena na cidade de São Paulo, 14 de maio de 2020
Brinquedos são deixados ao Sol durante quarentena na cidade de São Paulo, 14 de maio de 2020  - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2021
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O número de jovens que nem estudam, nem trabalham atingiu alta histórica de 29,33% em meio à pandemia de COVID-19. Como reverter esse quadro e quais os impactos dessa desocupação para o futuro do Brasil?

Pesquisa recente do instituto FGV Social mostra que o número de jovens que nem estudam, nem trabalham, os chamados "jovens nem-nens", atingiu recorde histórico durante a pandemia. A partir do último trimestre de 2019, a taxa de nem-nens, que se encontrava em 23,66%, saltou para 29,33%.

Apesar da retração deste percentual para 25,52% em 2020, a alta taxa de desocupação na juventude brasileira aponta para graves problemas, tanto do ponto de vista social quanto econômico.

"Este dado é bastante preocupante, dado que a nossa juventude é relativamente grande: são quase 50 milhões de pessoas [na faixa etária entre] 15 a 29 anos", explicou o diretor do FGV Social, Marcelo Neri, à Sputnik Brasil. "Essa não é só uma situação difícil para eles, mas também para todo o país."

De acordo com o pesquisador, o número de jovens nem-nens "é uma medida de exclusão de atividades básicas fundamentais, é uma medida de pobreza".

© AP Photo / Silvia IzquierdoPessoas aguardam despejo de ocupação na cidade do Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2020
Geração COVID-19: alta no número de jovens 'nem-nens' deve deixar cicatriz para além da pandemia - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2021
Pessoas aguardam despejo de ocupação na cidade do Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2020

"Muitos jovens nem-nens estão em comunidades de baixa renda, somente nas periferias eles são 27%", alertou Neri. "O jovem que não investe em educação vai ficar com o futuro comprometido [...] e se ele não trabalha, não conseguirá ter renda."

Apesar da preocupação imediata com essa categoria, principalmente durante a pandemia, as consequências deste aumento devem ser sentidas também a longo prazo.

"Diversos estudos mostram que o efeito de uma grande recessão, como a que a gente está vivendo agora [...] deixa marcas. Porque é uma fase de ascensão trabalhista na vida do jovem, que sobe na vida até os 40, 50 anos", disse Neri.

Quando a situação socioeconômica "impõe uma espécie de teto de vidro, você limita esse desenvolvimento, e isso gera cicatrizes que são difíceis de serem curadas", lamentou o especialista.

Evasão escolar

A pesquisa do FGV Social traz alguns dados surpreendentes, como a queda na evasão escolar durante a pandemia.

De acordo com o instituto, a taxa de evasão atingiu seus níveis mais baixos da série histórica em todas as faixas etárias durante a crise sanitária.

© Folhapress / Simon Plestenjak / UOLAlunos entrando em escola municipal na zona oeste de São Paulo, em 30 de novembro de 2017
Geração COVID-19: alta no número de jovens 'nem-nens' deve deixar cicatriz para além da pandemia - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2021
Alunos entrando em escola municipal na zona oeste de São Paulo, em 30 de novembro de 2017

O número, no entanto, segue elevado: entre alunos de 15 e 29 anos, a evasão escolar em 2020 ficou em 57,59%, uma queda de cerca de quatro pontos percentuais em relação a 2019.

"A evasão escolar cai talvez não pelas melhores razões. O que pode explicar [esse fenômeno] é o jovem não ter outra oportunidade, e por isso se apegar à instituição de ensino, à falta de cobrança de presença e mesmo à aprovação automática", elencou Neri.

Segundo ele, no entanto, a pandemia forneceu uma oportunidade para que se invista em inclusão digital, que teria gerado resultados positivos para a manutenção dos jovens nas instituições de ensino.  

"A inclusão digital é a cara do jovem, ele tem facilidade", disse o pesquisador. "Temos uma oportunidade institucional de promover essa inclusão, com o envio de conteúdos digitais."

Além da inclusão digital, serão necessárias políticas públicas para reinserir o jovem nem-nem na sociedade de forma adequada.

© AP Photo / Andre PennerJovem olha pela janela na comunidade Dique da Vila Gilda, Santos (SP), 8 de julho de 2020
Geração COVID-19: alta no número de jovens 'nem-nens' deve deixar cicatriz para além da pandemia - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2021
Jovem olha pela janela na comunidade Dique da Vila Gilda, Santos (SP), 8 de julho de 2020

"Acho que seria importante a implementação de algum tipo de subsídio ao emprego do jovem [...] para que ele estude uma jornada razoável que possa ser conciliada com o trabalho", acredita Neri.

Ele alerta, no entanto, que é "necessário olhar os tons de cinza: não é adequado para o jovem trabalhar oito horas e estudar. Isso não vai ser bom para os estudos".

Blecaute de dados

Para que políticas específicas sejam formuladas para os nem-nens, é importante manter os dados sobre essa categoria atualizados.

No entanto, a aprovação do orçamento de 2021, adiou a realização do censo em um ano, o que pode fragilizar a base de dados tão necessária para identificar pessoas em situação de vulnerabilidade social no Brasil.

Para Neri, o cancelamento deste tipo de iniciativa "afeta muito a qualidade da pesquisa, uma vez que o censo dá a base para o plano amostral, no qual as pesquisas do IBGE e de outras instituições são feitas".

"Estamos em um voo cego em plena pandemia", disse o pesquisador. "Precisávamos da retomada da pesquisa PNAD COVID-19, que foi interrompida em novembro".

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) COVID-19, coordenada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), foi realizada de maio a novembro de 2020, com o intuito de "estimar o número de pessoas com sintomas associados à síndrome gripal e monitorar os impactos da pandemia da COVID-19 no mercado de trabalho brasileiro", explica o IBGE.

© AP Photo / Bruna PradoPessoas em ônibus lotado em meio à pandemia, no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021
Geração COVID-19: alta no número de jovens 'nem-nens' deve deixar cicatriz para além da pandemia - Sputnik Brasil, 1920, 19.05.2021
Pessoas em ônibus lotado em meio à pandemia, no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021

Marcelo Neri está confiante, no entanto, que o censo será realizado em 2022, o que pode amenizar o "blecaute de dados" brasileiro.

Até então, nos resta fazer votos para que os jovens nem-nens encontrem as condições necessárias para "investirem no futuro através da educação", ou "colherem seus frutos através do trabalho", concluiu Neri.

Em maio de 2020, o instituto FGV Social, ligado à Fundação Getúlio Vargas, publicou a pesquisa "Juventudes, Educação e Trabalho: Impactos da Pandemia nos Nem-Nem", acusando aumento histórico na taxa de jovens brasileiros que nem estudam, nem trabalham.

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