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Que mudanças na política externa devem ser feitas por novo chanceler do Brasil?

© Foto / Jonas Pereira / Agência SenadoPalácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em Brasília
Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em Brasília - Sputnik Brasil, 1920, 31.03.2021
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Apesar da recente troca no comando do Ministério das Relações Exteriores, especialista ouvido pela Sputnik Brasil defende que país precisa de outras mudanças para tentar resgatar sua credibilidade e deixar de ser um pária internacional.

Nesta semana, sob muitas reclamações, o presidente Jair Bolsonaro decidiu substituir um dos principais nomes do seu governo, o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pelo embaixador Carlos Alberto Franco França, diplomata com 30 anos de carreira e ligado à área de cerimonial do Itamaraty. 

​Considerado um profissional discreto e socialmente hábil, segundo colegas citados pela Folha de S. Paulo, França teria um perfil mais pragmático em relação a seu antecessor, menos adepto a teorias conspiracionistas. Ainda assim, alguns analistas, como o professor de relações internacionais Roberto Uebel, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de Porto Alegre, acreditam que a troca não trará mudanças sérias para a atual política externa brasileira, que deverá permanecer sob influência da ala ideológica do governo. 

Em entrevista à Sputnik Brasil, Uebel atribui a nomeação de França a uma minirreforma ministerial programada para "criar uma narrativa que chame a atenção, em detrimento dos fatos da pandemia, que estão cada vez mais graves no Brasil": número crescente de óbitos e casos, colapso do sistema de saúde e vacinação em ritmo lento.

"Então, o governo Bolsonaro cria uma cortina de fumaça com essa minirreforma ministerial, na qual está incluída a troca do chanceler Ernesto Araújo pelo chanceler Carlos França", afirma.

Essa substituição, segundo o especialista, também atende a uma demanda do Congresso Nacional e, mais especificamente, do bloco do Centrão, que se tornou um importante aliado do governo nos últimos meses. Mas, ao optar por um nome mais moderado, de pouca expressão e pertencente ao chamado baixo escalão do Itamaraty, Bolsonaro, seus filhos e a chamada ala ideológica do governo tendem a ter, na verdade, ainda mais presença e poder de decisão sobre a política externa brasileira.

"Eu não vejo a saída do Ernesto Araújo como uma derrota da ala ideológica, mas, sim, essa tentativa de criação de uma cortina de fumaça, uma narrativa para desviar o foco e a atenção por parte dos críticos da imprensa e do próprio sistema internacional com relação à má gestão da pandemia. Mas também uma tentativa de ter maior autonomia, maior poder de influência dentro da política externa brasileira."

Para o professor, é difícil visualizar neste momento a possibilidade de uma adesão maior do Brasil ao sistema internacional multilateral e aos próprios processos de diálogos em fóruns e organizações internacionais.

"O Brasil, hoje, é considerado um pária internacional, pela sua diplomacia, e também é considerado uma certa ameaça à segurança sanitária internacional. Hoje, o Brasil é motivo de preocupação por parte de outros atores, como os Estados Unidos, a União Europeia, o Japão, a China e, principalmente, para os nossos vizinhos aqui do Mercosul e da América do Sul."

No caso de um cenário hipotético em que o novo ministro das Relações Exteriores pudesse ter uma carta branca para liderar a política externa, a primeira coisa que ele deveria fazer, de acordo com o analista, seria resgatar a imagem do Brasil no exterior, com foco especial nos EUA, na UE e na China, nossos principais parceiros comerciais e com os quais o país teve um grande desgaste diplomático durante a gestão de Araújo.

Em segundo lugar, Uebel destaca que seria necessário buscar uma reaproximação dos países do Mercosul, bloco que "depende muito do Brasil para o seu pleno funcionamento". 

​"Esses seriam os dois pontos principais que Carlos França deveria assumir. Eu digo deveria porque é muito difícil que a gente tenha uma mudança de fato na condução da política externa por parte do governo atual. Porque ele busca trazer para si, para a figura do presidente da República, para os seus filhos, para o seu entorno familiar e ala ideológica, toda e qualquer decisão de política externa."

Um exemplo dessa dinâmica personalista, segundo o especialista, foi a decisão do governo de manter Filipe Martins no cargo de assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, ele que, na última semana, gerou revolta entre parlamentares e na opinião pública ao ser flagrado fazendo um gesto característico de grupos supremacistas norte-americanos durante a 19ª Sessão de Debates Temáticos no Senado Federal.

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