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Brasil precisa mudar seu modelo de desenvolvimento, defende climatologista

© AP Photo / Leo CorreaPedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará
Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará - Sputnik Brasil, 1920, 05.03.2021
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Os recentes dados sobre a emissão de gases de efeito estufa nos municípios brasileiros mostram que o país deve buscar outro modelo de desenvolvimento, afirma em entrevista à Sputnik Brasil o climatologista Carlos Nobre.

Na última quinta-feira (4), o Observatório do Clima lançou a versão municipal do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, o SEEG Municípios, que revelou que sete dos dez municípios que mais emitem gás carbônico no Brasil estão na Amazônia, tendo o desmatamento como principal fonte de emissões.

Juntas, as dez cidades campeãs de emissão respondem por 172 milhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO²e). A lista é liderada por São Félix do Xingu, no Pará, com 29.768.597 toneladas, seguida por Altamira-PA (23.381.897) e Porto Velho-RO (22.492.817). A maior metrópole do país, São Paulo, aparece apenas na quarta posição, com 17.964.207 toneladas de carbono. 

​Esse impacto maior do desmatamento sobre a emissão de gases de efeito estufa é "triste", mas não é "surpresa", conforme explica o climatologista Carlos Nobre, membro do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), ex-pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e criador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

"Pode parecer estranho, mas não é surpresa. Porque em um hectare de floresta desmatada e queimada, depois de desmatada, queimada, emite mais de 300 a 350 toneladas de gás carbônico. Então, é ali que estão os municípios com altíssimos índices de desmatamento. Então, não é, de fato, surpresa", afirma em entrevista à Sputnik Brasil.

Normalmente, cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa, segundo o especialista, têm ligação com a queima de combustíveis fósseis, enquanto 24% são por conta de mudanças no uso da terra e agricultura. No Brasil, ele destaca, ocorre o contrário, com o desmatamento e a agropecuária respondendo pela maior parte das emissões.

"Vejam bem, 2020, ano em que a pandemia fez as emissões globais de gás carbônico caírem, de queima de combustíveis fósseis caírem 7%, o Brasil foi um dos pouquíssimos países do mundo em que houve um aumento das emissões. Em 2020, as emissões no Brasil foram maiores do que em 2019, mesmo com a diminuição da queima de combustíveis fósseis dos transportes, dos lockdowns, diminuição do transporte aéreo e do transporte terrestre que nós tivemos." 

© Folhapress / André CranVista aérea de queimada na Amazônia, vista à partir da cidade de Porto Velho, capital de Rondônia
Brasil precisa mudar seu modelo de desenvolvimento, defende climatologista - Sputnik Brasil, 1920, 05.03.2021
Vista aérea de queimada na Amazônia, vista à partir da cidade de Porto Velho, capital de Rondônia

De acordo com o cientista, além de contribuir com emissões significativas de gases, o desmatamento também preocupa porque, com ele, perde-se também a capacidade que as florestas têm de retirar gás carbônico da atmosfera, aumentando o aquecimento global.

"As florestas globais retiram 30% do gás carbônico que nós emitimos. Emitimos perto de 40 bilhões de toneladas e as florestas retiram quase 12 bilhões de toneladas. A floresta amazônica já retirou mais de dois bilhões de toneladas de gás carbônico por ano."

Para Nobre, os números do SEEG Municípios mostram a necessidade de se mudar o "modelo de desenvolvimento do Brasil", encerrando a expansão das fronteiras das commodities agrícolas, principalmente na Amazônia. 

"O Brasil tem, sim, o potencial de continuar sendo um país produtor de alimentos — para nós, brasileiros, e para exportação —, mas utilizando uma área muito menor", afirma. 

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