General russo desmente mitos mais populares sobre campanha soviética no Afeganistão

© Sputnik / Lulishov SolomonRetirada das tropas soviéticas do Afeganistão (foto de arquivo)
Retirada das tropas soviéticas do Afeganistão (foto de arquivo) - Sputnik Brasil
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Em 15 de fevereiro, a Rússia, junto com os outros 14 países do antigo campo soviético, comemora o 29º aniversário da retirada das tropas soviéticas da República Democrática do Afeganistão.

O conflito virou o episódio mais marcante da Guerra Fria, já que suas consequências veem afetando até hoje o sistema da segurança nacional e a estabilidade regional. 

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Embora a campanha dos EUA no Afeganistão tenha começado há 17 anos ainda esteja em andamento até agora, a maior parte dos mitos (principalmente graças aos analistas militares norte-americanos) está relacionada à campanha militar soviética.

A fim de desmentir os mitos mais populares sobre o conflito, a Sputnik Internacional entrevistou o coronel-general Boris Gromov, o último comandante do 40º exército que participou da campanha militar soviética no Afeganistão.

Mito 1º: 'A guerra soviético-afegã'

"O primeiro equívoco sobre o conflito é o nome dado à campanha", explicou o general.

"Ao chamá-la de 'guerra soviético-afegã', tal pressupõe que o conflito tinha um caráter bilateral, ou seja, era um confronto entre o Afeganistão e a URSS, o que é errado".

De acordo com o militar, este mito era popularizado pelo Ocidente a fim de dar legitimidade aos mujahidin, apoiados pelos EUA e seus aliados.

© Sputnik / Yuri SomovSoldados soviéticos regressados do Afeganistão após a campanha militar entre 1979 e 1988
Soldados soviéticos regressados do Afeganistão após a campanha militar entre 1979 e 1988  - Sputnik Brasil
Soldados soviéticos regressados do Afeganistão após a campanha militar entre 1979 e 1988

"A permanência do exército soviético no Afeganistão era legítima, já que fora solicitada pelo governo afegão em 1979", assinalou o general, acrescentando que, de fato, o conflito girou em torno do confronto entre o governo legítimo liderado pelo Partido Democrático do Povo do Afeganistão e os mujahidin, bandidos islamistas e outros rebeldes.

Resumindo, o general enfatizou que não é correto encarar um conflito dinâmico a "preto e branco"- como um confronto entre a URSS e os afegãos.

Mito 2º: A URSS perdeu a guerra

Provavelmente, trata-se do equívoco mais popular sobre a campanha soviética no Afeganistão.

"Não é uma descrição correta dos eventos", explicou o general.

"Primeiro, vale destacar que, sendo general do exército soviético no Afeganistão, nunca me mandaram 'vencer' alguém".

"Em seu auge, o 40º exército contava com somente 108.800 homens, o que por sua vez mostra que ninguém tinha objetivo de vencer no Afeganistão no sentido clássico", explicou.

© Sputnik / Aleksandr GrashenkovRegimento de tanques se preparando para regressar à URSS durante a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão
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Regimento de tanques se preparando para regressar à URSS durante a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão

Em contraste, durante a guerra no Vietnã, os EUA instalaram um contingente de tropas cinco vezes maior do que o 40º exército em um território cinco vezes menor que o Afeganistão.

Gromov enfatizou que a missão de seu exército no Afeganistão era "criar condições para a atividade do governo legítimo do país", acrescentando que os que encaram o final da campanha através do prisma "vitória-derrota" não percebem o caráter complexo das operações militares contra guerrilheiros.

"Acredito que as tropas soviéticas cumpriram a sua missão no Afeganistão com êxito", frisou Gromov, destacando que, durante toda a campanha, as tropas soviéticas mantinham o controle sobre a maior parte do país e que nenhum ponto estratégico foi capturado pelos mujahidin.

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Enquanto isso, o governo legítimo liderado por Mohammad Najibullah estava criando órgãos de segurança eficientes, sua popularidade como líder estava crescendo. 

Quando perguntado sobre a razão por que o governo de Najibullah no fim das contas foi derrubado pelos mujahidin, Gromov assinalou que naquela época a URSS, que antigamente prestava apoio financeiro a Najibullah, colapsou, o que pôs fim ao suporte financeiro.

Documentos desclassificados da CIA provam que, caso a URSS tivesse continuado apoiando o governo legítimo, os mujahidin não teriam conseguido derrubar Najibullah. 

Mito 3º: 'Violência, violência, nada mais que violência'

O comandante também desmentiu o mito de que a missão das tropas soviéticas foi acompanhada por 'crueldade extrema' em relação ao povo afegão. 

Gromov frisou que as histórias sobre os "cruéis soldados soviéticos" foram inventadas pelos que estavam apoiando os mujahidin, visando aumentar o seu financiamento e legitimidade política.

"A verdade é que a União Soviética realizava numerosos programas políticos, civis e econômicos com intuito de melhorar a situação dos habitantes locais", explicou o general, dando como exemplo as 127 operações civis que o exército soviético realizou em 1982, que incluíram a reparação de casas, distribuição de alimentos e medicamentos, bem como a realização de eventos culturais.

O comandante deixou claro que quaisquer afirmações de que a URSS alegadamente utilizava a tática de terra queimada no Afeganistão são "completamente erradas".

© Sputnik / Valery ShustovSoldado afegão entrega um distintivo a um soldado soviético
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"Qualquer oficial que já participou de operações de combate contra rebeldes entende muito bem que boas relações com a população local são vitais para o sucesso de ações políticas e civis, bem como para a diminuição de vítimas, sendo esta a principal prioridade".

"Vale destacar que nós até conseguimos chegar a acordo com vários inimigos nossos, tais como Ahmad Shah Massoud, a fim de garantir a retirada segura de nossas tropas", ressaltou Gromov.

Mito 4º 'Os norte-americanos fazem isso melhor'

O general comentou a atual campanha dos EUA no Afeganistão, desmentindo o mito de que os norte-americanos estão agindo com mais êxito, e apontou para várias diferenças significativas entre a operação soviética e a dos EUA.

"Primeiro, nós cumprimos a promessa e retiramos as tropas do Afeganistão, enquanto os EUA permanecem na área mesmo após a 'retirada', anunciada em 2014", sublinhou Gromov.

O general indicou também a diferença entre a atitude operacional da URSS e dos militares norte-americanos, que se atolaram no Afeganistão por quase 17 anos.

© AP Photo / Marco Di LauroHelicóptero militar dos EUA AH1-Huey no aeroporto de Kandahar, Afeganistão (foto de arquivo)
Helicóptero militar dos EUA AH1-Huey no aeroporto de Kandahar, Afeganistão (foto de arquivo) - Sputnik Brasil
Helicóptero militar dos EUA AH1-Huey no aeroporto de Kandahar, Afeganistão (foto de arquivo)

"Durante nossa permanência no Afeganistão, o 40º exército estava controlando a maior parte do Afeganistão, forçando os mujahidin a agir clandestinamente, já que eles não possuíram um poder real no país", afirmou Gromov.

O mencionado contrasta fortemente com o último relatório da BBC, de acordo com o qual, no momento, o movimento Talibã (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países) está controlando completamente ou está agindo livremente em aproximadamente 70% do território afegão. 

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"Ao contrário dos norte-americanos, que têm o costume de ficar dentro de suas bases, os soldados soviéticos estavam instalados por todo o país — nas grandes cidades, bem como em vilas e povoados pequenos", frisou o comandante.

Gromov enfatizou também que, em comparação com os EUA, a União Soviética não tencionava impor seu sistema político e econômico ao Afeganistão, já que sua permanência no país foi condicionada por "interesses pragmáticos e geopolíticos, especialmente no que se refere à segurança, mas não por ideologia".

Concluindo, o general Gromov expressou seu orgulho por liderar os soldados soviéticos que "com dignidade, superaram numerosos desafios na terra afegã".

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