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Lula: PT perdeu a utopia, “só pensa em ser eleito”

© AFP 2022 / Nelson AlmeidaEx-presidente Lula durante comemorações do Dia do Trabalhador, em São Paulo
Ex-presidente Lula durante comemorações do Dia do Trabalhador, em São Paulo - Sputnik Brasil
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Em conferência realizada nesta segunda-feira (22) pelo Instituto Lula em São Paulo, o ex-presidente do Governo da Espanha Felipe González falou sobre a crise grega, a questão dos imigrantes e os erros de política que levaram o continente europeu à sua atual crise de governança e democracia.

O evento, organizado em parceria com as Fundações Friedrich Ebert e Perseu Abramo, também contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que decidiu se pronunciar ao fim do debate. 

“A vinda do companheiro Felipe González para o debate pode ser o começo de um novo momento de discussão que a gente tenha que fazer no Brasil. Durante muito tempo nós nos trancamos na nossa verdade e também durante muito tempo assistimos a esquerda europeia ir definhando, definhando, perdendo cada vez mais o discurso”, disse Lula, agradecendo a presença de González. 

Sobre a experiência no poder do Partido dos Trabalhadores (PT), o ex-presidente disse que seu “maior legado” foi o exercício da democracia. “Nunca antes na história do Brasil o povo exerceu tanta democracia”, disse ele, destacando mecanismos de participação nas decisões políticas introduzidas durante seu governo. 

No entanto, Lula reconheceu que o partido precisa repensar sua atuação, principalmente porque, segundo suas palavras, “perdeu um pouco a utopia” que o caracterizava antes de ter chegado ao poder. 

“A gente nasceu de um sonho, e era um sonho muito pequeno: que a classe trabalhadora pudesse ter vez e ter voz. E nós construímos essa utopia. (…) Acontece que o partido político cresce (…), e quando isso acontece entramos na roda gigante da política. E muitas vezes, ao invés de mudar a politica, a gente vai se adequando à política”, ponderou o ex-presidente.

“O PT perdeu um pouco a utopia. Lembro como a gente acreditava nos sonhos, como a gente chorava quando falava. (…) Hoje a gente só pensa em cargo, (…) em ser eleito. É o vício do partido que cresceu e que chegou ao poder. O PT precisa construir uma nova utopia”, acrescentou, muito aplaudido pelo público.

“Temos que decidir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou salvar o nosso projeto”, resumiu.

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Lula também comentou a crise da democracia na esfera internacional. Citando o caso recente do Egito, ele destacou que uma promissora “Primavera Árabe” acabou desembocando, atualmente, na volta dos militares ao poder.  

Sobre a Líbia, Lula disse que “a morte do [presidente Muammar] Khadafi não tem explicação para a democracia”. “Resolveram transformar a Líbia no inimigo da humanidade, e hoje a situação está muito pior”, disse ele, lembrando ainda o caso de Saddam Hussein, “quando os americanos inventaram que tinha que invadir o Iraque”. 

“A democracia nunca correu tanto risco como agora, porque pessoas insensatas tomaram decisões insensatas”, afirmou Lula, em crítica aberta às intervenções militares patrocinadas por líderes do Ocidente.

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González, por sua vez, disse que a União Europeia errou ao priorizar a imposição de medidas de austeridade ao invés de fortalecer “políticas anticíclicas” para enfrentar a crise econômica na Grécia. 

Em suas palavras, a prática neoliberal que caracteriza o poder dos mercados financeiros globalizados sobre os governos nacionais se traduz como um “esforço de austericídio”, que levou Atenas a aumentar sua dívida de um patamar que era de 20% sobre o PIB grego em 2010 para 190% em 2015.

“A verdadeira consequência [da queda da União Soviética] é que pela primeira vez na História se dá mais importância ao mercado do que à democracia”, pontuou o ex-presidente. 

“Nosso verdadeiro poder [enquanto governo] não é a produção de riquezas (…), é criar um marco regulatório previsível e eficaz capaz de proteger as grandes massas e não deixá-las abandonadas”, acrescentou.

González também falou sobre os movimentos anti-imigração que têm se fortalecido na Europa, por vezes com nuances potencialmente fascistas e xenófobas. 

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De acordo com o palestrante, “na Europa os fluxos migratórios são uma necessidade para a sobrevivência do continente”, mas os políticos europeus não podem mais reconhecer este fato publicamente sem perder os votos de uma camada cada vez mais expressiva da população hostil aos imigrantes.

A situação, segundo González, é reflexo de outro erro de julgamento político da liderança europeia. Ele citou, particularmente, o caso da intervenção militar da OTAN na Líbia em 2011 para derrubar o governo de Khadafi, operação que, segundo o ex-presidente espanhol, levou à “desintegração completa do país” e provocou uma enorme onde de refugiados e imigrantes. 

González disse ainda que, na época, tentou explicar para a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, bem como para o então presidente francês Nicolas Sarkozy, que a intervenção na Líbia levaria a uma catástrofe, mas não teve sucesso.   

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Após sua fala, o ministro da Educação, Renato Janine, disse que o processo democrático na América Latina está “sob ataque”, com certas “forças” da extrema direita contestando até mesmo a legitimidade de governos de esquerda eleitos democraticamente, e pediu a opinião de González sobre a melhor forma de enfrentar essa tendência. 

O ex-presidente espanhol pontuou que a melhora das condições sociais fomentada por governos de esquerda, em geral, acompanha naturalmente o aumento das demandas populares, bem como das críticas e dos ataques, justamente porque o povo ganha condições materiais para poder exigir mais direitos. No entanto, González enfatizou sua total aversão a qualquer movimento golpista, ressaltando a necessidade, para a democracia, de se respeitar a legitimidade das eleições.      

Terceiro presidente do Governo desde a volta da democracia na Espanha, González contribuiu entre 1982 e 1996 para a consolidação da democracia espanhola após o fim da ditadura de Francisco Franco, que foi de 1936 a 1975. Membro do Partido Socialista Obrero Español, ele se definiu na conferência desta segunda-feira como membro da “tribo da Internacional Socialista”.

Lula e Felipe González
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Lula e Felipe González

“Durante seus quatro mandatos, ajudou a Espanha a reduzir a inflação, modernizou a economia e ampliou a integração com o continente europeu. Foi um dos responsáveis pela entrada do país da Comunidade Europeia, embrião da União Europeia. Além disso, garantiu a expansão da democratização espanhola dando independência ao judiciário e fortalecendo a liberdade de expressão e de imprensa; promoveu a inclusão social ampliando o acesso das camadas mais pobres à saúde e à educação”, segundo informa o site do Instituto Lula

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